João Werner
O ato de sentar em um boteco, onde conhecemos os freqüentadores e o dono do local, é uma daquelas coisas tipicamente brasileiras. Cariocas, paulistas, mineiros, todos, a sua maneira particular, transformaram isso em uma verdadeira arte nacional, com direito a bíblias, guias, discípulos, papudos, teólogos e os adeptos mais conscientes da prática de beber e jogar conversa fora. Mas o boteco, este antro ancestral do ócio e da camaradagem, está ameaçado, está acabando. As suas características principais e mais legais, aos poucos, vão abrindo espaço para uma espécie de monstruosidade do goró. Os grandes centros vêem uma metamorfose curiosa, a invasão das grandes redes, da grife, do shopping, do selo de qualidade, que muitas vezes é garantia certa de falta de qualidade. Mas boteco é como manteiga, quanto maior a superfície do pão, mais fina e sem gosto ela fica. Claro, boteco não é nenhum templo ou algo assim, mas exatamente por isso ele depende do charme. E convenhamos, charme é algo único, que não pode ser copiado, xerocado. A vantagem do boteco sobre o bar tradicional, mais organizado, é justamente o charme (sub) urbano, a informalidade organizada, a desordem que toma lugar na fila. A tentativa de transformar os botecos antigos em redes de atendimento padronizado, com a mesma qualidade em todas as filiais é um paradoxo e um contra senso, ou seja, nunca conseguirão. Personalidade não pode ser compartilhada por vários clones. O ovo cozido colorido, a cachaça, o torresminho, o tira gosto, a calabreza frita, a salsicha, o garçon, o dono, os azulejos sujos da parede, o banheiro quase sempre grafitado, todos esses elementos são frutos do trabalho do tempo, da interação natural entre a ordem e o caos do paladar e da convivência social, amigável. É inevitável que saibas o nome do garçon, mesmo que o chame gritando de, comandante, capitão, tio, brother, camarada, pois é em seu ombro que vais chorar ao som de “Nervos de aço” cantado pelo Jamelão no fim da noite. A divisão do tempo de prosa das mesas devem obedecer a um critério: 50% sobre as mulheres nossas e dos outros, 40% sobre futebol e 10% sobre os pileques anteriores, as ressacas homéricas. O pindura é livre pois nem sempre temos o “largent, money, reais” no bolso, datavênia ao freguês com mais de 5 (cinco) anos, como reza a lei do usocapião. Não se trata de tecer loas nostálgicas ao regionalismo tosco e mambembe. Trata-se apenas de identidade. De uma forma ou de outra, o convívio social está sendo exterminado pela falta de grana, pela violência e pela descaracterização. Botecos não são marcas, não dependem de logotipos, não dependem de atendimentos padronizados. Dependem da cerveja gelada sempre, da caipirinha de vodka ou da boa cachaça, do campari com limão e gelo no fim de noite, do conhaque Presidente, do Natu Nobilis, da sardinha frita, do bolinho de bacalhau da Praça da República, do gorgonzola, da pururuca, da salsicha estufada e já branca no pote de vidro, daquela pizza de muzzarela na estufa, com uma fatia de tomate em cima, que consegue ser gostosa mesmo que se pareça com o primeiro estágio do Alien, o oitavo passageiro. Dependem do ovo de cores não permitidas pelas lei da ótica, do garçon que olha para a tua cara e coloca um chorão de conhaque a mais, do português de Bauru, do espanhol do Belenzinho, do Rafa do Elidio na Mooca, do Bar do Dinho Corradini, do Dani do Portal do Vale, do Bar do Miguel, do Bar da Furquia, do Boteco do Matias Camacho, do Bar do Luisinho, das batidas do Tio Peres, do Buteco do Lavagnini, do Bar da Igrejinha, do Bar do Tonon, Bar do Alemão de Itu, do Bianco, do Bar do Filenga, Bar do Fontana, do Muzardo, do italiano da São Pedro na Mooca, do Bar do Trento, Bar do Chico, Bar do Justo em Santana e por aí vai. Estes elementos pitorescos e donos de uma poesia do grotesco que somente o bom bebedor e boêmio consegue captar não tem absolutamente nada a ver com o pastiche do atendimento serial. Se o fast food está transformando o hambúrguer em uma arte perdida, sabe-se lá o que estes botecos de plástico podem fazer com a cachaça e o calor humano ora recebidos. Diga não às drogas, passe de cabeça erguida pelos botecos de plástico ignorando-os e dirija-se esnobe até o botequim legitimo mais próximo ou longe, vá longe, não importa, mas vá. Porém não se esqueça, essa é tiro e queda, sente na mesa mais próxima da entrada, se possível na calçada, pois alguma mulher irada com seu consorte, sai de casa e pensa: hoje eu vou sair com o primeiro que aparecer. Se estiver bem colocado, poderá ser você, bravo boêmio e freqüentador do boteco. E tenho dito, no país da impunidade, saideira é como lei, existe para ser desobedecida. Salve os “butecos” ou salvem os “butecos”. Saúde.
Cássio Aguiar
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