UMAS E OUTRAS
19/09/2018 - Edição 186 - Set/2018
Zaqueu Fogaça

O Lar de Leonilson

Depois de 10 anos instalado na Rua França Pinto, o projeto Leonilson, responsável pela preservação e divulgação da obra e da memória do artista plástico José Leonilson (1957-1993), tem um novo endereço no bairro: a casa onde o artista passou a infância e os últimos dias de vida, na Rua Major Maragliano, 94.

A casa passou por uma grande reforma para receber o acervo, conta a diretora do projeto e irmã do artista, Ana Lenice Silva (na foto com a filha Gabriela), que conduziu o Pedaço da Vila num passeio pela nova sede. A mudança é muito especial, afirma. “A sensação é a de estarmos em nossa casa. Estamos muito felizes, pois agora temos melhores condições de trabalho”.

Em cada ambiente é possível conhecer o universo de um artista minucioso e sensível, apaixonado pela pesquisa e pelo ato de colecionar. Além das obras, também estão expostos objetos pessoais como máquinas fotográficas, brinquedos, mapas, materiais de trabalho e uma coleção de fitas cassetes e diários pessoais. “Ele criava a qualquer hora e em qualquer lugar. Era cuidadoso e deixou todo o seu trabalho bem documentado”.

A sede do projeto abriga mais de 1000 obras e objetos pessoais do artista. No piso térreo, logo na entrada, foi reproduzida a sala em que Leonilson recebia as visitas. Entre obras de sua autoria e de amigos figuram algumas de suas mobílias. No piso superior encontra-se a sua biblioteca de arte. “Ele sempre estudou muito e formou um rico acervo de arte”, ressalta a irmã.

A imaginação de Leonilson se manifestou em diferentes linguagens: pintura, bordado, desenho, instalação, figurino, cenário teatral e textos. Em suas obras, dizia que o texto era tão importante quanto a figura. O vocabulário que ilumina seu percurso criativo inclui palavras como vulcão, ponte, pedra, mapa, corpo, montanha, mar, fogo, cabeça...

A solidão e o amor foram os grandes temas investigados por Leonilson. Sempre fora muito fiel a um projeto artístico profundamente marcado pelo caráter autobiográfico. Em sua fase madura, suas obras foram tornando-se cada vez menores, ampliando os espaços em branco. Até o fim da sua vida, nunca deixou de criar. “Esses desenhos ele fez na cama, já doente; as linhas estão trêmulas”, observa a irmã enquanto mostra uma das obras do fim de sua carreira.

Ana Lenice explica que a nova sede possibilita revelar outras faces menos conhecidas de Leonilson, como as obras geométricas, as plantas arquitetônicas, as aquarelas e um conjunto de ilustrações publicadas no jornal Folha de S.P que revelam um artista a par de seu tempo. Nelas, desfere críticas ácidas ao capitalismo, à violência e à corrupção. “As críticas são tão atuais que parecem ter sido feitas hoje”, observa Ana.

A obra de Leonilson revigorou-se com o passar do tempo. Em 2017 ele se juntou a Volpi, Tarsila e Portinari após ter a sua obra completa reunida no renomado catálogo raisonné, vigoroso material de pesquisa e estudo artístico. São três volumes com 3.400 obras, histórico de cada uma e textos críticos que iluminam sua trajetória. “Ele foi o primeiro artista brasileiro contemporâneo a ter o catálogo raisonné”, orgulha-se a diretora.

Em 25 anos de atuação, o projeto Leonilson se tornou uma referência para outras famílias que que preservam a obra de seus artistas, conta Ana Lenice. “Elas nos procuram entender como é feito esse trabalho. Inclusive, muitas famílias já começam a fazê-lo com seus artistas ainda vivos”.

A nova sede é motivo de grande celebração para equipe do projeto e familiares do artista, comemora Ana Lenice. “Agora estamos em casa. Aqui Leonilson passou a sua infância, parte da sua juventude e os últimos dias de sua vida. A obra retornou à sua casa e estamos todos felizes, especialmente o Leonilson”.

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Para conhecer a obra do artista no Projeto Leonilson, agende uma visita pelo site: www.projetoleonilson.com.br

Em cartaz: Algumas ilustrações criadas por Leonilson para a Folha de S.P podem ser conferidas até o dia 2 de dezembro na exposição Arte-veículo, em cartaz no Sesc Pompeia. Grátis


 


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